Apesar do cenário adverso, com perspectiva de novo e substancial encolhimento do mercado brasileiro para cerca de 2 milhões de veículos este ano, a Fiat Chrysler Automobiles (FCA) promete continuar a investir fortemente em suas operações no Brasil. No momento, a companhia desenha um plano para além de 2017, após o término do programa de R$ 15 bilhões no período 2011-2016, cerca de metade direcionado ao megainvestimento do Polo Automotivo Jeep em Goiana (PE), inaugurado há menos de um ano, além de grandes aportes para a modernização da antiga fábrica da Fiat em Betim (MG) e lançamento de produtos, sendo o mais recente deles a picape Fiat Toro apresentada esta semana, que sozinha consumiu R$ 1 bilhão. “Com os investimentos que continuamos a fazer nós estaremos melhor preparados para quando a economia voltar a crescer”, avalia Stefan Ketter, que assumiu este ano a presidência do grupo FCA na América Latina, após passar cerca de dois anos morando em Recife para coordenar a instalação da planta pernambucana, hoje a mais moderna e eficiente da companhia em todo o mundo.

Ketter trabalha para efetivamente fundar a FCA no Brasil, derrubando as barreiras corporativas internas que ainda separavam a Fiat das marcas do grupo Chrysler, sendo a Jeep a mais bem-sucedida. As áreas sensíveis da administração da empresa estão sendo gradualmente transferidas para a sede da empresa em São Paulo, cortando aos poucos a centralização em Minas Gerais. “O Brasil não é só Minas e a FCA não é só Fiat”, afirma o executivo, que recentemente promoveu o remanejamento de diversos cargos e localizações de pessoas na companhia, deixando a impressão de que mais está por vir.

MAIS AUTONOMIA

Ao mesmo tempo em que realinha o organograma, Ketter quer verticalizar a operação latino-americana, com mais autonomia para desenvolver processos e produtos com padrão internacional de qualidade, abrindo dessa forma mais espaço para exportações. “Não podemos continuar a ser um país que desafia as normas do resto do mundo. O Brasil precisa participar do mundo, não pode ser uma ilha infeliz”, justifica. “Existem empresas que estão se preparando para isso e outras menos. Nós nos enquadramos no primeiro grupo. A Toro é um exemplo disso, o desenvolvimento e design foram feitos aqui. Se não tivéssemos investido para ter uma fábrica e um produto de padrão internacional não teríamos o que exportar. Hoje estamos sendo assediados por outros países que querem comprar a Toro. Isso é muito bom”, comemora.

A nova picape parece ser apenas a primeira de uma série de novo produtos que devem ser desenvolvidos pela FCA no Brasil. “Agora temos mais suporte para fazer aqui e não excluo novos desenvolvimentos. A Toro mostrou que temos capacidade de conduzir aqui todo o design e a engenharia de um produto”, diz Ketter, com a autoridade de quem parece ter ganhado carta branca da matriz para realizar mudanças e agir com autonomia. Além de fazer parte do board mundial da companhia, o executivo também acumula o cargo de vice-presidente de manufatura global, com responsabilidade sobre todas as fábricas do grupo no mundo.

O executivo avalia que mesmo o consumidor brasileiro não aceita mais qualquer tipo de produto. “O mercado mudou, está diferente independentemente da crise econômica. Houve uma transformação na expectativa do cliente, que atualmente pode comparar o carro nacional com milhares de importados que circulam nas ruas de uma capital como São Paulo”, diz Ketter. Nesse sentido, ele acredita que a FCA acertou em cheio com o último produto lançado dentro da nova fase da empresa no Brasil, o Jeep Renegade, que durante 2015 ficou várias vezes entre os 10 carros mais vendidos do País. “Jogamos a carta genial, a única que podíamos, por isso voltamos a dar resultado positivo no segundo semestre do ano passado. A Toro e os próximos lançamentos devem seguir na mesma linha”, afirma. O plano é promover a renovação completa do portfólio no Brasil nos próximos três anos.

PRÓXIMOS PASSOS

A fábrica de Pernambuco tem capacidade para montar até 250 mil unidades/ano de quatro modelos diferentes sobre uma mesma plataforma – e pode ainda fazer mais dois em fase de substituição de produtos, para que a entrada de um novo carro em linha não coloque o antigo para fora, evitando assim a perda de produção na fase de transição. Depois do Jeep Renegade, a Fiat Toro é só o segundo da planta e o terceiro, um outro Jeep, deve começar a ser feito só no ano que vem. A unidade já opera em dois turnos com 7 mil empregados, contando também o parque de fornecedores instalado no mesmo terreno. Com a chegada da Toro, mais mil pessoas estão sendo contratadas, todas já pré-selecionadas.

“A FCA América Latina se propôs a fazer um grande investimento em Pernambuco e agora será a vez de Betim, que segue sendo a maior fábrica do grupo no mundo e altamente competitiva. Sua importância não muda”, explica Ketter. Segundo ele, isso quer dizer que a planta mineira também receberá novos produtos, “mas disso eu não posso falar ainda”, desconversa. O primeiro dessa nova fase deve ser lançado nos próximos meses, será o Mobi, o novo carro de entrada da Fiat.

Sobre o momento atual desfavorável, Ketter repete o coro dos que acreditam que vai passar, como sempre aconteceu antes no Brasil. “O ano começou pior do que se esperava, mas o segundo semestre deve ser melhor. Se tivermos alguns alicerces a retomada pode ser mais rápida do que pensamos”, considera.

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